sexta-feira, 13 de junho de 2008

Parabéns Pessoa



Pessoa é fractal. Dentro de cada Pessoa há outro Pessoa e assim, sucessivamente, sem fim, sem haver Pessoa para além de Pessoa, da esconsa viela à Avenida do V Império.
Pessoa é a lucidez das mensagens ambíguas, do que não gosta de ser, gostando de não gostar de ser ao mesmo que gostaria de ser Pessoa diferente.
Pessoa é um nevoeiro denso leve, etílico, mas matematicamente preciso.
Pessoa é a ansiedade do horóscopo, a fragmentação da rocha de praia, o astrolábio do desamor que muito ama.
Pessoa é mesa de café a navegar à deriva num oceano de aguardente salgada por lágrimas.
Pessoa é um gigante, disfarçado em não Pessoa que usou óculos redondinhos.
Pessoa é o ridículo elevado ao máximo expoente da farsa que esconde a mais séria das verdades: o destino, fatal, roleta pré-programada.
Pessoa, o Portugal D'Além.


Nasceu Pessoa, denominado Fernando, há 120 anos.


Post scriptum: Eu, europeu de nado-geografia, tropicalista por inevitabilidade, medianamente conhecedor da História e das suas circunvoltas, um estudioso e praticante da natureza humana, nunca me quis convencer das vantagens da “União” que, aliás, considero um mero episódio da conjuntura alargada e não uma estrutura, rio-me com este “Não” irlandês.
Não deixa de ser curioso que no único país onde o povo se pode pronunciar, pronunciou-se pela negativa em relação ao desconcerTratado de Lisboa.
A Europa-unidade é um mito fixado pelas fronteiras do cristianismo continental, pontualmente conseguida pela força da espada e dos canhões, mas nunca sem resistência e sem, ab initio, as sementes da sua destruição.
Bela maneira de comemorar os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

...um livro com "L" maiúsculo...



"É habitual insistir-se na nossa infinita capacidade de adaptação, seja onde for. Pergunto-me se não se trata antes do contrário. Se não devíamos falar até da impossibilidade de deixarmos de ser quem somos, tal a densidade interior que acumulámos..." CLEMENTE, D. Manuel.

"Portugal e os Portugueses", de autoria de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto e também um enorme vulto da Cultura Portuguesa, editado pela Assírio & Alvim. Quando a erudição se junta a uma extraordinária capacidade de comunicar...há muito tempo que não lia um livro tão bom, escrito por um português, sobre coisas fundamentais para nós.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

...um miminho pós tortilha escangalhada (mas muito saborosa)...

Estes bloqueios, para além dos seus efeitos imediatos, têm revelado a elevada fragilidade da nossa dita Civilização Ocidental, que para o bem e para o mal, nos integramos.
Uma Civilização que está apenas presa pelos arames da sua própria presunção, que é abalada por alguns aviões que espetam contra torres, por um bloqueio de transportes e pela alta do petróleo.
A Humanidade - e este nosso lado, apesar de tudo, ainda é o melhor lado para ser gente – fabricou a corda com que se vai enforcar (e não apenas o capitalismo como afirmou Lenine), que é como quem diz criou condições objectivas para a sua própria extinção.
Tudo é debilidade, tudo é aparência, tudo é fragilidade.
Fizemos do mundo um imenso castelo de cartas que está já a derrubar-se.
O caos já cá anda, o tempestuoso noutras latitudes, o canceroso por cá. Devagar, devagarinho, como quem chama por nós, já se ouve o ruído dos cascos dos quatro cavalos que transporta o Conselho de Administração da empresa Apocalipse, SA.

...cogitação pós-bola...

O País está armado em revolucionário…é tudo carbonário. Barricadas, manifestações, protestos e uma confrangedora falta de visão de conjunto.
Eu, se fosse o Sócrates, mandava distribuir gratuitamente pistolas de paint ball.

...

terça-feira, 10 de junho de 2008

...Viva o Dia da ex-Raça!...

A esquerda vodka-caviar deliciou-se com o lapso de Cavaco ao referir-se ao Dia de Portugal com o Dia da Raça. É evidente que foi um lapso provocado por anos e anos de hábito.
Não vejo nenhum mal ao mundo e mesmo no tempo em que o 10 de Junho era o Dia da Raça essa raça nunca foi de cariz étnica, sempre foi uma raça branca, negra, amarela e até vermelha. A questão da “Raça” era outra coisa, uma outra coisa própria de outros tempos e de outros pensares. Não se celebrava a cor da pele mas sim um sentir de Portugal, de Minho a Timor, celebrava-se uma raça de marinheiros e andarilhos, de heróis e missionários, uma raça de poetas e soldados.
Pode ser politicamente incorrecto – mas estou-me a marimbar para isso – mas prefiro mil vezes o espírito da comemoração do Dia da Raça do que a estopada de novos Comendadores de enfiada, o raminho no túmulo de Camões e a “ranchada” em todas as associações de emigrantes. Cada qual é como é e eu sou assim.

Viva o Dia da ex-Raça!

...dez de junho...

...há um tempo que parece que foi ontem que parece que foi muito uma semente encontrou uma terra uma terra recebeu uma semente e essa semente germinou nessa terra e essa terra fez essa semente germinar e a semente ganhou raízes e as raízes misturaram-se na terra e a semente cresceu e a terra abriu-se e a semente fez-se árvore e a terra se tornou tronco e tronco que era da árvore e que era terra abriu os braços e a terra abraçou o céu e dos braços da árvore que era terra nasceu um fruto que era terra sementada e a árvore que era terra que se abriu para semente crescer ganhou nós e os nós eram de terra que deu fruto de uma semente que germinou e isso tudo foi ontem há quanto tempo que já nem me esqueço e a terra lá está e a árvore continua lá...

segunda-feira, 9 de junho de 2008

domingo, 8 de junho de 2008

...um ar de provocação...

“a tua visão da vida é sempre estética.”
Esta afirmação de “Um ar de” no seu comentário ao meu “post” anterior, suscitou-me a vontade de pensar nisso. A sua constatação resultou, em mim, numa provocação….

Sou, antes de tudo o mais, um cultor de sensações. Sensações que me alimentam a minha “ideia” de e da vida. Essa ideia é uma construção harmónica, alicerçada em consonâncias mas também em dissonâncias, que é o mesmo que dizer que a minha harmonia ideal – pensada e prosseguida – é feita de equilíbrios e desequilíbrios, de pontos com contrapontos mas também de pontos e desapontos (e aqui nasce um neologismo).
Cultivo, até ao limite – às vezes para além do chamado limite racional ou tolerável, porque nunca me coibi de arriscar a própria vida, pulsão que nem os alegados deveres perante um papel social nem o estatuto de paternidade, conseguiram eliminar.
Busco a sensação, de forma incessante, quer no objecto, se for suficiente, quer em mim mesmo, forçando o objecto a ser reagente em fórmula química interior.
Tento esgotar nesse dito objecto – e nele tudo cabe – a minha capacidade de absorção sensorial e se perceber que isso não basta, forço-me a arrancar-lhe o que falta para além dos sentidos.
A vida para mim não é em si mesma mas também não é uma passagem. Para mim a vida é um instrumento. Um instrumento a usar até à exaustão, sabendo sempre que não sei para o que serve, a não ser que sei que serve para a dissecação.
Essa dissecação é uma provocação permanente e assim sendo, sou muito mais um provocador que provoca para se auto-provocar que um esteta. Um esticador de cordas – e quanto a isso a idade ajudou a saber, quase com exactidão, até onde esticar, a parar no exacto micro-segundo, antes que as mesmas se partam.
Se a economia fosse feita de sensações eu seria, sem qualquer dúvida, um dos Onassis do planeta. Tenho uma enorme arca cheia de memórias – pegadas na alma – altamente rentáveis, mas apenas na minha Wall Street interior e privadíssima.