Pessoa é fractal. Dentro de cada Pessoa há outro Pessoa e assim, sucessivamente, sem fim, sem haver Pessoa para além de Pessoa, da esconsa viela à Avenida do V Império.
Pessoa é a lucidez das mensagens ambíguas, do que não gosta de ser, gostando de não gostar de ser ao mesmo que gostaria de ser Pessoa diferente.
Pessoa é um nevoeiro denso leve, etílico, mas matematicamente preciso.
Pessoa é a ansiedade do horóscopo, a fragmentação da rocha de praia, o astrolábio do desamor que muito ama.
Pessoa é mesa de café a navegar à deriva num oceano de aguardente salgada por lágrimas.
Pessoa é um gigante, disfarçado em não Pessoa que usou óculos redondinhos.
Pessoa é o ridículo elevado ao máximo expoente da farsa que esconde a mais séria das verdades: o destino, fatal, roleta pré-programada.
Pessoa, o Portugal D'Além.
Nasceu Pessoa, denominado Fernando, há 120 anos.
Post scriptum: Eu, europeu de nado-geografia, tropicalista por inevitabilidade, medianamente conhecedor da História e das suas circunvoltas, um estudioso e praticante da natureza humana, nunca me quis convencer das vantagens da “União” que, aliás, considero um mero episódio da conjuntura alargada e não uma estrutura, rio-me com este “Não” irlandês.
Não deixa de ser curioso que no único país onde o povo se pode pronunciar, pronunciou-se pela negativa em relação ao desconcerTratado de Lisboa.
A Europa-unidade é um mito fixado pelas fronteiras do cristianismo continental, pontualmente conseguida pela força da espada e dos canhões, mas nunca sem resistência e sem, ab initio, as sementes da sua destruição.
Bela maneira de comemorar os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa.


